Redução do Pensamento à Palavra

"Tão desleal era a potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos. Na realidade o pensamento daquele homem era apenas vasto, o que não o tornava muito utilizável."

Quinta-feira, Junho 14, 2007

Cumple Años





¡Lo sé! ¡Lo sé!
Si me voy de aquí me traga el río.
Es mi destino: "hoy voy a morir".
Pero no, la fuerza de voluntad todo lo puede.
Están los obstáculos, lo admito.
No quiero salir.
Si tengo que morir, será en esta cueva.
Las balas, que me pueden hacer las balas
si mi destino es morir ahogado, pero voy
a superar mi destino. El destino se puede
alcanzar con la fuerza de voluntad.
Morir si, pero acribillado por
las balas, destrozado por las bayonetas,
si, no, no, ahogado no...
un recuerdo más perdurable que mi nombre
es luchar, morir luchando

Domingo, Maio 27, 2007

Ohh



The world is blowing up
The world is caving in
The world has lost her way again
But you are here with me
But you are here with me
Makes it ok

I hear you still talk to me
As if you're sitting in that dusty chair
Makes the hours easier to bare
I know despite the years alone
I'll always listen to you sing your sweet song
And if it's all the same to you

I love you oh so well
Like a kid loves candy and fresh snow
I love you oh so well
Enough to fill up heaven overflow and fill hell
Love you oh so well

And it's cold and darkness falls
It's as if you're in the next room so alive
I could swear I hear you singing to me

I love you oh so well
Like a kid loves candy and fresh snow
I love you oh so well
Enough to fill up heaven overflow and fill hell
Love you oh so well

The world is blowing up
The world is caving in
The world has lost her way again
But you are here with me
But you are here with me
Makes it ok
Oh girl you are singing to me still
Like a kid loves candy and fresh snow
I love you oh so well
Enough to fill up heaven overflow and fill hell
Love you oh so well

Domingo, Abril 01, 2007

Love will tear us Apart



"Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde..."

Domingo, Fevereiro 04, 2007




A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.

E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'

Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

Nothing Better




Will someone please call a surgeon who can
crack my ribs and repair this broken heart that
you're deserting for better company?
I can't accept that it's over: I will block the door
like a goalie tending the net in the third quarter
of a tied-game of rivalry
So just say how to make it right
and I swear I'll do my best to comply
Tell me am I right to think that there could be
nothing better
then making you my bride and slowly growing
old together
I feel I must interject here, you're getting carried
away, feeling sorry for youself with these
revisions and gaps in history.
So let me help you remember. I've made charts
and graphs that should finally make it clear.
I've prepared a lecture on why I have to leave
So please back away and let me go
I can't my darling I love you so...
Tell me am I right to think that there could be
nothing better
than making you my bride and slowly growing
old together
don't you feed me lines about some idealistic
future
your heart won't heal right if you keep tearing
out the sutures
I admit that I have made mistakes and I swear
I'll never wrong you again
you've got a lure I can't deny, but you've had
your chance so say goodbye

Sábado, Dezembro 23, 2006


Quinta-feira, Dezembro 21, 2006



Ainda o magnífico concerto no Campo Pequeno, em Lisboa, em finais de 2006...

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

IVG





Blog de debate da IVG em:

http://blogdonim.blogspot.com/

Domingo, Dezembro 03, 2006

Ausência




As pessoas que não vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo até ao estado de noções abstractas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional, (...) Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos. (...) Tão presa aos sentidos é a natureza humana. Por isso, aqui também são sábias as palavras de Goethe: O tempo presente é um deus poderoso.

Arthur Schopenhauer





Domingo, Novembro 26, 2006

Renascer





Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência.

Fernando Namora, in 'Jornal sem Data'



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Ordinary People

Domingo, Novembro 05, 2006

A.R.




Ser surpreendido por tudo é claro que é estupido, e não ser supreendido por nada é algo que é considerado muito melhor. Mas isso não é realmente verdade. A minha mente não ser surpreendida por nada é cair no vazio e na rotina! É o mecanizar, é o repetir e é o não sentir...porque já nada é novo e tudo é cinzento.

Dia após dia, o de hoje ainda se assemelha ao de ontem, ao da semana passada ou ao do mês anterior, vida com cores esbatidas pelo Sol e pelo tempo, que mais se assemelha a uma velha e desinteressante foto a preto e branco.

Nunca páres de me surpreender, continua a dar cor a esta vida...



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Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Pedante,Pedantismo e Associados




do It. Pedante

adj. e s. 2 gén.,

pretensioso;

afectado; impostor; que ou aquele que faz ostentação de conhecimentos superiores aos que possui.


pedantismo

s. m.,

modos ou actos de pedante;

pedantaria.

Confesso que de todas as espécies o pedante é a que me irrita mais solenemente, principalmente o pedantismo efectuado por trás de máscaras de inquestionável sapiência. Atinge extremos tais, que quase me questiono sobre a realidade, e admito a possibilidade de existirem pessoas a viver em diferentes dimensões?




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Terça-feira, Outubro 10, 2006




Foge-se, prepara-se a fuga...uma fuga cujos caminhos acabam por delinear formas circulares, acabando por transformar a vivência em ciclos.
Repetem-se as sensações, os momentos, as dúvidas e as hesitações...e ainda que algum aperfeiçoamento seja alcançado, pode não ser suficiente para determinar os desfechos desejados.
Na verdade a crença a que somos levados, quando chegamos a acreditar que de algum modo poderemos exercer algum controle ou influência determinante sobre a nossa vida, é hipotética e não efectiva.
Acordamos dentro de um jogo de xadrez no qual as peças não têm forma, e sobre as quais não sabemos como actuar.Perde-se toda a lógica e racionalidade, e joga-se como que vendado, não se podendo antecipar de forma alguma os resultados e implicações de qualquer acção.
Talvez por isso tais vivências assumam intensidades por vezes difíceis de explicar, a nossa natureza humana venera o desconhecido e o inexplicável despoletando paixões e obcessões sem que as suas causas se consigam vislumbrar.

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Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Memorable Quotes from 2046



When you don't take "no" for an answer, there is still a chance you'll get what you want.

I once fell in love with someone. I couldn't stop wondering if she loved me back. I found an android which looked just like her. I hoped she would give me the answer.

Take care. Maybe one day you'll escape your past. If you do, look for me.

In love you can't bring on a substitute.

Why can't it be like it was before?

Do you remember you asked me if there was anything I wouldn't lend? I've given it a lot of thought and now I know there is one thing I'll never lend to anyone.

Love is all a matter of timing.

It's no good meeting the right person too soon or too late.

If I'd live in another time or place... my story might have had a very different ending.

I slowly began to doubt myself.

Maybe the reason she didn't answer was not that her reactions were delayed but simply that she didn't love me.

The only thing left for me... was to give up.

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Domingo, Julho 02, 2006




Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.
De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...

Pablo Neruda, in 'Nasci para Nascer'

Terça-feira, Junho 06, 2006

Olhar...




No teu olhar eu procuro as respostas. As perguntas, que não tenho coragem de fazer. As duvidas que me provocam o pensamento. As carícias que desejo ter. No teu olhar eu encontro o conforto. Os teus carinhos que quero encontrar. Dos teus beijos que me fariam sonhar. Dos teus pensamentos que me fazem viajar. No teu olhar eu descobri que vale a pena. Ser criança e brincar. Ser tolo e amar. Ser homem e desejar. No teu olhar eu sinto o calor. De um sol interno e profundo. De uma fogueira a queimar. De uma brasa que nos funde em paixão. No teu olhar eu desejo ter esperança. De uma sedução incontrolável. De uma sensação de prazer. De uma vontade de te ter. No teu olhar eu faço parecer as palavras tolas. De quem ama sem saber amar. De quem deseja sem saber o que desejar. De quem encontrou o que não estava à procura. No teu olhar eu vejo a criança que existe na tua alma. Que nos ensina a viver. Que nos mostra a pureza de querer. No teu olhar me entrego. Aos pensamentos loucos de uma paixão. Aos desejos de ter um coração. Aos infinitos sonhos de uma ilusão. No teu olhar eu... Procuro e encontro. Descubro e sinto. Desejo e falo. Vejo e me entrego. A uma paixão que me faz viver e sonhar...
Dizem que até a mais delicada flor pode abrir caminho por entre as rochas mais duras... e desabrochar.
Quase todos os dias passo por ti neste computador, sempre que te deixas encontrar, e ao ver-te escondo-me no silêncio como que a testemunhar um milagre, pois sei que também tu és esta pequenina flor que por entre as pedras da vida abres caminho e floresces a cada dia que passa...
Queria muito poder dizer que o silêncio era incapaz de calar e a distância já não nos conseguia separar por causa de toda a amizade, orgulho e profundo carinho que encontro em ti. Mas limito-me pelo sonhar? Porque perde-se e ganha-se todos os dias. No entanto, mesmo quando o sonho se perde, foi bom ter acreditado. Porque è disso que são feitos os sonhos.

Terça-feira, Maio 23, 2006

Morrer Lentamente...




«Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece. Morre lentamente quem faz da televisão seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o escuro ao invés do claro e os pontos nos is a um redemoinho de emoções (...). Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz (...), quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho. Morre lentamente quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, ouvir conselhos sensatos. Morre lentamente quem não viaja, não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante. Morre lentamente quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, nunca pergunta sobre um assunto que desconhece e nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe. (...)», Pablo Neruda

Domingo, Maio 21, 2006

Quase...




"Quase... Ainda pior do que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Prós erros há perdão; prós fracassos, chance; prós amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixes que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo te impeça de tentar. Desconfia do destino e acredita em ti. Gasta mais horas realizando que sonhando, fazendo que planeando, vivendo que esperando, porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."

(Luiz Fernando Veríssimo)

Sexta-feira, Maio 19, 2006




Take me out tonight
Where there's music and there's people who are young and alive,
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one, anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and I want to see light,
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because It's not my home, It's their home
And I'm welcome no more

And if a double-decker bus crashes into us
To die by your side, such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck kills the both of us
To die by your side
Well the pleasure and the privilege is mine

Take me out tonight
Oh take me anywhere, I don't care, I don't care, I don't care
And in the darkened underpass I thought oh God, my chance hascome at last
But then a strange fear gripped me and I just couldn't ask
Take me out tonight
Take anywhere, I don't care, I don't care, I don't care
Just driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one, Oh Lord
No I haven't got one.

There is a light that never goes out...

The Smiths

Terça-feira, Abril 25, 2006





Pergunto ao vento que passa

Notícias do meu país

O vento cala a desgraça

O vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste

Em tempo de servidão

Há sempre alguém que resiste

Há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

Quinta-feira, Abril 20, 2006



TV-Movie (the movie of my life)

Without you my life has become a hangover without end.
A movie made for TV: bad dialogue,
bad acting, no interest.
Too long with no story & no sex.
Is it a kind of weakness
to miss someone so much?
To wish the day would go away?
Like you did yesterday.
Just like you did yesterday.

& I can't think of a way to get through this pain:
To be happy again to make it all alright & I know it must be bad
'cos sitting here right now,
all I know is I can't even think,
I can't even think of anything clever to
say, to say
So I say why pretend any longer?
'Cos I need you here with me.
It's obvious that I miss you so much
so please say you're gonna stay.
So please say you're gonna stay.
So please say you're gonna stay.

The night is getting darker
now and there's nothing on TV
but I'll sit tight 'til morning light.
Yeah, I'll wait until the day.
Until the day that you say you're gonna stay.

Pulp

Quarta-feira, Abril 19, 2006

O Valor do Tempo





Fico sempre surpreendido quando vejo algumas pessoas a exigir o tempo dos outros e a conseguir uma resposta tão servil. Ambos os lados têm em vista a razão pela qual o tempo é solicitado e nenhum encara o tempo em si - como se nada estivesse a ser pedido e nada a ser dado. Estão a esbanjar o mais precioso bem da vida, sendo enganados por ser uma coisa intangível, não aberta à inspecção, e, portanto, considerada muito barata - de facto, quase sem qualquer valor. As pessoas ficam encantadas por aceitar pensões e favores, pelos quais empenham o seu labor, apoio ou serviços. Mas ninguém percebe o valor do tempo; os homens usam-no descontraidamente como se nada custasse.

A Lamentação é Completamente Inútil

Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuoso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.

Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a , como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.

Basta, portanto.

Todo o Mal Provém não da Privação mas do Supérfluo




Ser feliz é, afinal, não esperar muito da felicidade, ser feliz é ser simples, desambicioso, é saber dosear as aspirações até àquela medida que põe o que se deseja ao nosso alcance. Pegando de novo em Tolstoi, que vem sendo em mim um padrão tutelar, lembremos de novo um dos seus heróis, o príncipe Pedro Bezoukhov (do romance 'Guerra e Paz'). As circunstâncias fizeram-no conviver no cativeiro com um símbolo da sabedoria popular, um tal Karataiev. Pois esse companheirismo desinteressado e genuíno, esse encontro com a vida crua mas desmistificadora, não só modificaram o príncipe Pedro como lhe revelaram o que ele precisava de saber para atingir o que nós, pobres humanos, debalde perseguimos: a coerência, a pacificação interior, que são correctivos da desventura.
Tolstoi salienta-nos que Pedro, após essa vivência, apreendera, não pela razão mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal provém não da privação mas do supérfluo, e que, enfim, não há grandeza onde não haja verdade e desapego pelo efémero. Isto, aliás, nos é repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta síntese desoladora: «Todos lutam, sofrem e se angustiam, todos corrompem a alma para atingir bens fugazes».